November 4th, 2008



Os dias aqui, geralmente, começam com o alarme de um despertador; uma vontade irresistível de mais 5 minutinhos de sono; e um primeiro pensamento assustado, transitando entre sonho e realidade. Os três primeiros segundos, ao acordar, são de localização no espaço, tempo e prioridades. "San Diego. Segunda-feira. Não se atrasar para aula".

Dia 4 de Novembro de 2008, como todas as terças-feiras, o alarme despertou às oito. Snooze. Cinco minutos depois, "Ih, hoje não tem aula"; segundo pensamento (confesso que foi o segundo) "Ih, hoje tem eleições". Depois de mais uma hora de sono, comecei meu dia entre animação e apreensão, esperando um clima parecido na politizada Califórnia.

Nada diferente. As ruas permaneciam rotas, traçadas com determinação por pessoas que alcançam diariamente seus destinos, com um abismo entre cada uma delas. Não havia troca de olhares em busca de cumplicidade. Os desconhecidos mantinham a distância habitual, sem qualquer resquício de união por uma causa, compartilhamento de ideais ou, ao menos, união por um momento de tamanha importância e nacionalismo. Pra quem está acostumada a agarrar o primeiro estranho, por um simples gol do Flamengo, no Maracanã, a mentalidade individualista americana me causou certo choque.

Aos poucos, com o esquentar do sol, os moletons e casacos davam lugar à blusas com traços de esperança e mudança. A rotina mecânica era quebrada com o calor de uma tímida troca de sorrisos, entre transeuntes orgulhosos de seus compatriotas que exibiam seus adesivos "I voted". Bótons, faixas, cartazes. Alguns apenas estimulando o dever civil de cada cidadão. Outros tomando partido. Via-se um rosto particularmente simpático e elegante estampado na maioria dos aparatos. Acenos de cabeças. Um sinal de aprovação com as mãos. E a pergunta que aproximou os americanos nessa terça-feira: "Have you voted yet?".

Com o passar das horas, a ansiedade parecia aumentar. O combinado era 19h, Great Hall. Com fitas vermelhas, azuis e brancas, balões de gás hélio e singelos arranjos de mesa, o salão principal da universidade estava lotado de estudantes. Dois imensos telões (ligados em canais diferentes, para não gerar discussão) e cento e cinqüenta pizzas aguardavam os quatrocentos alunos, que não paravam de chegar.

A contagem de votos começou. O mapa dos EUA, com a divisão de Estados, se fazia a imagem mais freqüente nas telas, juntamente com as fotos dos, então, candidatos à presidência. A palavra projeção não era suficientemente satisfatória. Uns desviavam o olhar da tela, temendo o resultado, outros rezavam por um mudança brusca do mesmo. O azul democrata começou contornando o mapa. O vermelho republicano, no entanto, ocupava seu interior, como já era de se esperar. Os Estados eram, aos poucos, coloridos, um a um, processo longo e doloroso, especialmente para os mais ansiosos. Com o intúito de destrair estes últimos, poupando-lhes as poucas unhas que lhes restavam, um jovem engajado subiu num pequeno palanque. Abaixou-se o som dos telões e a imagem saiu do ar, para que as atenções se voltassem inteiramente para o apresentador (um tanto quanto pretencioso), que enumerava as atrações da noite. Aos final de seu discurso, sem muito sucesso, as conversas paralelas finalmente tomaram conta do ambiente e os presentes, talvez, por dois minutos, se deram o luxo de relaxar. Por pouco tempo.

Uma mistura de grito e choro. O salão se calou. Uma menina negra, que se encontrava agachada no chão, junto a um radinho de pilha, tremendo, sem saber se chorava ou sorria, gritava. Entre as lágrimas que escorriam e o desnorteamento emocional, as palavras saiam desconexas de sua boca. Houve uma troca generalizada de olhares, buscando entender o que se passava. O buxixo foi crescendo galopantemente. "Turn the TV on! Turn the TV on!". Um técnico atrapalhado com a pressão do momento conseguiu fazer funcionar o som, mas não a imagem. Foram quase vinte segundos de multidão gritando extasiada do outro lado da tela e nós, sem vermos o que acontecia, não acreditando enquanto não testemunhássemos com nossos próprios olhos. As pessoas se entreolhavam, se perguntando incrédulas "Did he win? Did he win?". Até que finalmente veio a imagem.

Mulheres, homens, idosos, crianças, brancos, negros, gays, heteros. Chicago vinha abaixo pela televisão. Milhares de pessoas emitindo ininterruptamente o som gutural emocionado de vitória, de conquista. Do nosso lado da tela, mais especificamente do meu lado esquerdo, uma senhora de cabelos grisalhos não se conteve. Levando suas mãos ao rosto, rendeu-se ao choro compulsivo de uma criança. Choque de felicidade, seguido de falta de reação e perda de palavras. Todos pareciam sofrer desse mesmo mal. "He won... Obama won!".

Os momentos que se seguiram foram de euforia! A história estava feita. O discurso do, agora, derrotado John McCain, reconhcendo a vitória de seu adversário foi a primeira tentativa de convencimento dos que ainda duvidavam de seus próprios olhos. O salão, mais uma vez calado, aplaudia, talvez, pela primeira vez, as palavras do republicano.

Mas a verdadeira prova, para os verdadeiros céticos, só se deu, minutos mais tarde, quando a figura do mais recente herói Barack Obama foi revelada, com todo seu carisma, firmeza e elegância de mais novo líder e presidente dos Estados Unidos da América. Uma multidão nunca se fez tão silenciosa. O desejo irrevogável de ouvir suas palavras unia cada uma das pessoas presentes, de um lado ou de outro da tela. Olhos vidrados, ouvidos atentos. E, depois de um discurso de motivação e esperança, aplausos. Intermináveis aplausos. Merecidos aplausos.

Alarme de um despertador; uma vontade irresitível de mais 5 minutinhos de sono; e um primeiro pensamento assustado. "Was I dreaming?". "San Diego. Quarta-feira. Obama eleito". Alívio. "Não se atrasar pra aula".

Uma cama pra chamar de Sua

Numa noite de sexta feira, há algum tempo atrás, eu sentei na cama onde havia dormido por quase dez dias (e, por mais que não fosse minha, já estava tomando a minha forma e cheirava ao conforto da adaptação) e pensei "tenho que arrumar minhas coisas".

Me lembro de sentir um frio na barriga antes de apagar as luzes para dormir e do meu último pensamento: "amanhã começa de verdade".

Meio-dia. "Putz! Acordei atrasada! Não nego as minhas raízes, não tem jeito!". Literalmente levantei num pulo. Me vesti, arrumei a cama (as raízes também me deram educação!). Bom dia pra todo mundo. Café da manhã corrido. Arregacei as mangas e comecei a missão "descer-escada-com-duas-malas-pesadíssimas". Com a ajuda do dono da casa, a missão foi concluída com sucesso. Fecha o porta mala. "Tá com tudo? Não tá esquecendo nada?", ele me perguntou. Fiz uma rápida check list mental "documentos, dinheiro, chave (não tenho), celular e nervosismo", respondi que sim, "tudo em cima", mesmo com sentimento de que estava deixando alguma coisa para trás e, mais tarde, perceberia ser mais um capítulo da minha viagem.

Fomos nos aproximando da universidade. O campus foi ficando cada vez maior e o carro, cada vez menor. E, saindo de trás das árvores, finalmente vi os prédios modernos, beges, novos, que rapidamente puderam reconhecer em mim a ansiedade de uma "caloura", sentimento ao qual já estavam acostumados, depois de receberem incontáveis alunos internacionais que chegavam a cada quarter e sentiam, imagino, o mesmo que eu.

A burocracia para conseguir a chave transcorreu mais rápido do que eu imaginava. Cinco mesas depois, mostrando documentos, recebendo código para caixa postal, formulário de conservação da casa e instruções básicas, finalmente recebi, num chaveirinho azul que dizia UCSD e tinha todos os números de emergência para se ligar nas mais diversas situações, a chave da minha casa e a chave do meu quarto.

O apartamento estava vazio, mas via-se os rastros de habitação das minhas roomates, que eu ainda não conhecia. A primeira impressão: "Hum... a sala é bem grande. O sofá confortável. Mesinha de centro, pra apoiar os pés. Opa! Várias balas e chocolates! Uma outra mesa redonda perto da bancada da cozinha americana, pro café da manhã. Que demais! E uma grande janela! Ué, mas esse janelão de vidro (que vai do teto ao chão) dá pra calçada principal? Isso é muito devassado!" Depois eu entendi a esperteza do arquiteto que construiu. Além de ser uma maneira (forçada, é verdade) de maior interação com todos os membros da International House, viria a ser também o principal meio de comunicação (a janela e a mímica, é claro) com os alunos, amigos, vizinhos do prédio da frente, do lado, etc. Muito útil!

No corredor tinham quatro portas numeradas e o meu quarto era o da ponta, número 1. "Oba! Uma cama cumprida e alta, de madeira clara, com quatro gavetas enromes embaixo. Uma escrivaninha linda, combinando com a cama. Um closet espaçoso. E uma janela que dava para...", abri as cortinas e "Ufa! Verde! Perfeito! (Dividir os quarto com os vizinhos já seria intimidade demais!)".

Os dias que se seguiram, antes do início das aulas, foram integralmente ocupados pelos inúmeros eventos sociais de boas vindas, organizados pela I-House e pela própria universidade. Festas, cafés, almoços, jantares. Alunos internacionais vão à praia. Tour pela biblioteca. Foi uma semana de orientação e integração. E não é que funcionou?

Depois de comprar lençóis, travesseiros e um delicioso edredon, finalmente voltei a sentir o conforto da adaptação, numa cama, que já tem a minha forma e, desta vez, é minha de verdade.