Uma cama pra chamar de Sua
Numa noite de sexta feira, há algum tempo atrás, eu sentei na cama onde havia dormido por quase dez dias (e, por mais que não fosse minha, já estava tomando a minha forma e cheirava ao conforto da adaptação) e pensei "tenho que arrumar minhas coisas".
Me lembro de sentir um frio na barriga antes de apagar as luzes para dormir e do meu último pensamento: "amanhã começa de verdade".
Meio-dia. "Putz! Acordei atrasada! Não nego as minhas raízes, não tem jeito!". Literalmente levantei num pulo. Me vesti, arrumei a cama (as raízes também me deram educação!). Bom dia pra todo mundo. Café da manhã corrido. Arregacei as mangas e comecei a missão "descer-escada-com-duas-malas-pesadíssimas". Com a ajuda do dono da casa, a missão foi concluída com sucesso. Fecha o porta mala. "Tá com tudo? Não tá esquecendo nada?", ele me perguntou. Fiz uma rápida check list mental "documentos, dinheiro, chave (não tenho), celular e nervosismo", respondi que sim, "tudo em cima", mesmo com sentimento de que estava deixando alguma coisa para trás e, mais tarde, perceberia ser mais um capítulo da minha viagem.
Fomos nos aproximando da universidade. O campus foi ficando cada vez maior e o carro, cada vez menor. E, saindo de trás das árvores, finalmente vi os prédios modernos, beges, novos, que rapidamente puderam reconhecer em mim a ansiedade de uma "caloura", sentimento ao qual já estavam acostumados, depois de receberem incontáveis alunos internacionais que chegavam a cada quarter e sentiam, imagino, o mesmo que eu.
A burocracia para conseguir a chave transcorreu mais rápido do que eu imaginava. Cinco mesas depois, mostrando documentos, recebendo código para caixa postal, formulário de conservação da casa e instruções básicas, finalmente recebi, num chaveirinho azul que dizia UCSD e tinha todos os números de emergência para se ligar nas mais diversas situações, a chave da minha casa e a chave do meu quarto.
O apartamento estava vazio, mas via-se os rastros de habitação das minhas roomates, que eu ainda não conhecia. A primeira impressão: "Hum... a sala é bem grande. O sofá confortável. Mesinha de centro, pra apoiar os pés. Opa! Várias balas e chocolates! Uma outra mesa redonda perto da bancada da cozinha americana, pro café da manhã. Que demais! E uma grande janela! Ué, mas esse janelão de vidro (que vai do teto ao chão) dá pra calçada principal? Isso é muito devassado!" Depois eu entendi a esperteza do arquiteto que construiu. Além de ser uma maneira (forçada, é verdade) de maior interação com todos os membros da International House, viria a ser também o principal meio de comunicação (a janela e a mímica, é claro) com os alunos, amigos, vizinhos do prédio da frente, do lado, etc. Muito útil!
No corredor tinham quatro portas numeradas e o meu quarto era o da ponta, número 1. "Oba! Uma cama cumprida e alta, de madeira clara, com quatro gavetas enromes embaixo. Uma escrivaninha linda, combinando com a cama. Um closet espaçoso. E uma janela que dava para...", abri as cortinas e "Ufa! Verde! Perfeito! (Dividir os quarto com os vizinhos já seria intimidade demais!)".
Os dias que se seguiram, antes do início das aulas, foram integralmente ocupados pelos inúmeros eventos sociais de boas vindas, organizados pela I-House e pela própria universidade. Festas, cafés, almoços, jantares. Alunos internacionais vão à praia. Tour pela biblioteca. Foi uma semana de orientação e integração. E não é que funcionou?
Depois de comprar lençóis, travesseiros e um delicioso edredon, finalmente voltei a sentir o conforto da adaptação, numa cama, que já tem a minha forma e, desta vez, é minha de verdade.
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