Minha Ipiranga e a avenida São João


Faz um tempo que não te vejo. Espero esse momento chegar. Penso aonde pode ser, se você vai estar só, se dessa vez vai levantar o rosto, me olhar nos olhos e acenar com um tímido sorriso; daquele jeito, como fez um dia e acostumou-me mal.

Enquanto meu coração com olhos de lince te vê distante e entra em descompasso, você parece nem me notar. Sempre com companhia, num corredor bege, nada propício, e a cabeça virada não sei para onde, você resiste; você existe.

Olho tanto quanto posso, insisto num aceno que não chega. Me contento, então, em admirar sua boca articulando palavras absolutamente supérfulas em relação ao processo que está ocorrendo dentro de mim.

Arranjo um motivo qualquer para ficar no mesmo ambiente que você; quem sabe sua atenção se volte para mim? De qualquer forma, posso admirar-te por mais alguns segundos, antes que alguém me chame e eu tenha que ir para longe, totalmente contrariada.

Talvez você também sinta em seu corpo um processo parecido com o que se passa no meu, só com reações diferentes. Talvez você esteja se escondendo atrás de sua mais tímida máscara. Mas pode ser também que se trate do mais verdadeiro desinteresse de sua parte.

Não sei, queria saber.

Queria que você soubesse. Para que, ao invés de insistir nesse difícil começo, afastando-se do que não conhece, se rendesse à deselegância discreta dessa menina.

Queria só que você soubesse que alguma coisa acontece no meu coração...

Learning To Speak

I'm bursting with emotions,
frustrations, at this point and work
Feelings trapped in unshaped ideas
Ideas trapped in unarticulated words
My body is screaming
And silence is all it's heard

I feel despair in my paralysis
Tiredness in wasted attempts
Sentences trampled by the rush of thoughts
Thoughts that no one can understand
My body is caving
And gloom is all it's seen

Watching me grow from the distance
You catch something I can't from inside
The painful sprouting of a possible artist
I see the hope in your trustful eyes
My body is suddenly filled with worries
Disappointment is all I fear

But you whisper no answer,
brighter, a way
You give me confidence to better assay
Fear aside, full of imperfections,
my first words are finally conveyed

My body is relieved,
I can listen to myself, believe
You're the one I look up to
You're the one that helped me grow
I'll make you proud of me,
Show you how far I can go

Queda Livre



- E aí? Já sabe o que você quer fazer da sua vida?
(Pensei em mil coisas que gostaria de fazer. Viajar o mundo. Aprender a cozinhar. Tocar um instrumento)
- Não, ainda não.
- Mas você tem alguma idéia?
(Várias. Poderia escrever um livro com a quantidade de idéias na minha cabeça, mas nenhuma delas responderia propriamente a pergunta que você está me fazendo)
- Mais ou menos.
- Pois é, tá na hora de escolher, né?
- É...


E foi assim que eu escolhi, aleatóriamente, saltar de pára-quedas.

Veja bem, voar, para mim, soava como sinônimo de liberdade. O vento contra o rosto, os pés longe do chão, braços e pernas se alongando na imensidão do espaço entre céu e terra, tudo isso, transgredindo leis da natureza humana. Idéia encantadora, decisão tomada.

Depois de pesquisar os lugares mais cotados, escolhi o que melhor assegurava um salto bem sucedido. Trinta anos de experiência, instrutor com mais de dois mil e seicentos saltos computados. Em retrospecto, vejo com ternura a inocente antecipação na escolha do onde.

No galpão, o nervosismo foi insistentemente ocupando o espaço de uma, agora tímida, empolgação. Em quinze minutos te fazem decorar trinta e seis regras que te "preparam" para o salto.

- Faça isso e aquilo, mas jamais, em hipótese alguma, aquilo outro.

Todo o foco se volta para o ato de saltar. Voar é a última coisa que passa pela cabeça.

Entrei no avião e os vinte minutos de vôo panorâmico reservados para admiração da paisagem foram, na verdade, de puro pânico. Três mil e setecentos metros depois, a empolgação virou insegurança. "Que que eu tô fazendo aqui?" Era tarde para desistir.

Vários estão na mesma situação que você, uns mais seguros que outros. Pula o primeiro. O segundo. É a sua vez. Obviamente, todas as regras já foram esquecidas e você só reza para não fazer, em hipótese alguma, aquilo outro. Entre pânico, medo e adrenalina, sabe-se lá como, você salta. Mais uma vez, uns melhores que outros. Eu saltei.

Optei pelo cinema. Aproveitei o quanto pude. Senti o vento refrescante das artes contra o rosto, os pés longe do chão na idealização de um futuro prazeroso e bem sucedido, braços e pernas se alongando pela imensidão, conquistando aos pouquinhos, um espaço entre céu e terra, tudo isso, transgredindo leis de estabilidade financeira e desafiando as do mercado de trabalho.

Durante o salto, a insegurança é substituída por adrenalina. Nem você mesmo acredita na sua coragem de pular. É bom estar viva. Experiência indescritível.

Em questão de segundos, porém, vê-se uma corda surgindo no céu e um desabrochar frenético de um pára-quedas no ar. Um daqueles companheiros de avião, teve sua chance e aproveitou. Imediatamente ele é sugado para cima e elevado a um outro nível. Você fica feliz por ele. Logo depois, percebe, no entanto, que continua caindo. E de repente, se preocupa.

Com o chão se aproximando cada vez mais, vejo meus companheiros, um a um, puxando suas cordinhas e meus amigos fazendo gols. Me questiono se esse negócio de pára-quedas é pra mim. E se não foi em um momento impuslivo e na tentativa de me sentir diferente, radical que me impus um sonho, sem saber o porque ou as conseqüências. Talvez devesse ter também optado pelo futebol. Segundos depois, volto atrás nesse pensamento. Agora, me aproximando do fim do pulo, não me arrependo da minha escolha. Sei que é no salto que está meu prazer. O sonho inventado anos atrás agora é legítimo.

Tive sorte suficiente de receber a liberdade de escolha e o apoio dos queridos. Agora, numa tentativa de fazer orgulhosos aqueles que me acreditaram, sem ter a menor garantia ou certeza de sucesso e com medo de me esborrachar no chão, aguardo pelo momento de aproveitar de outra forma, com menos inquietação e insegurança, meus minutos de um vôo tranqüilo e direcionado.

Estou aguardando a chance de abrir meu pára-quedas.
Ela vai chegar. Me convenço diariamente de que ela vai chegar.