
- E aí? Já sabe o que você quer fazer da sua vida?
(Pensei em mil coisas que gostaria de fazer. Viajar o mundo. Aprender a cozinhar. Tocar um instrumento)
- Não, ainda não.
- Mas você tem alguma idéia?
(Várias. Poderia escrever um livro com a quantidade de idéias na minha cabeça, mas nenhuma delas responderia propriamente a pergunta que você está me fazendo)
- Mais ou menos.
- Pois é, tá na hora de escolher, né?
- É...
E foi assim que eu escolhi, aleatóriamente, saltar de pára-quedas.
Veja bem, voar, para mim, soava como sinônimo de liberdade. O vento contra o rosto, os pés longe do chão, braços e pernas se alongando na imensidão do espaço entre céu e terra, tudo isso, transgredindo leis da natureza humana. Idéia encantadora, decisão tomada.
Depois de pesquisar os lugares mais cotados, escolhi o que melhor assegurava um salto bem sucedido. Trinta anos de experiência, instrutor com mais de dois mil e seicentos saltos computados. Em retrospecto, vejo com ternura a inocente antecipação na escolha do onde.
No galpão, o nervosismo foi insistentemente ocupando o espaço de uma, agora tímida, empolgação. Em quinze minutos te fazem decorar trinta e seis regras que te "preparam" para o salto.
- Faça isso e aquilo, mas jamais, em hipótese alguma, aquilo outro.
Todo o foco se volta para o ato de saltar. Voar é a última coisa que passa pela cabeça.
Entrei no avião e os vinte minutos de vôo panorâmico reservados para admiração da paisagem foram, na verdade, de puro pânico. Três mil e setecentos metros depois, a empolgação virou insegurança. "Que que eu tô fazendo aqui?" Era tarde para desistir.
Vários estão na mesma situação que você, uns mais seguros que outros. Pula o primeiro. O segundo. É a sua vez. Obviamente, todas as regras já foram esquecidas e você só reza para não fazer, em hipótese alguma, aquilo outro. Entre pânico, medo e adrenalina, sabe-se lá como, você salta. Mais uma vez, uns melhores que outros. Eu saltei.
Optei pelo cinema. Aproveitei o quanto pude. Senti o vento refrescante das artes contra o rosto, os pés longe do chão na idealização de um futuro prazeroso e bem sucedido, braços e pernas se alongando pela imensidão, conquistando aos pouquinhos, um espaço entre céu e terra, tudo isso, transgredindo leis de estabilidade financeira e desafiando as do mercado de trabalho.
Durante o salto, a insegurança é substituída por adrenalina. Nem você mesmo acredita na sua coragem de pular. É bom estar viva. Experiência indescritível.
Em questão de segundos, porém, vê-se uma corda surgindo no céu e um desabrochar frenético de um pára-quedas no ar. Um daqueles companheiros de avião, teve sua chance e aproveitou. Imediatamente ele é sugado para cima e elevado a um outro nível. Você fica feliz por ele. Logo depois, percebe, no entanto, que continua caindo. E de repente, se preocupa.
Com o chão se aproximando cada vez mais, vejo meus companheiros, um a um, puxando suas cordinhas e meus amigos fazendo gols. Me questiono se esse negócio de pára-quedas é pra mim. E se não foi em um momento impuslivo e na tentativa de me sentir diferente, radical que me impus um sonho, sem saber o porque ou as conseqüências. Talvez devesse ter também optado pelo futebol. Segundos depois, volto atrás nesse pensamento. Agora, me aproximando do fim do pulo, não me arrependo da minha escolha. Sei que é no salto que está meu prazer. O sonho inventado anos atrás agora é legítimo.
Tive sorte suficiente de receber a liberdade de escolha e o apoio dos queridos. Agora, numa tentativa de fazer orgulhosos aqueles que me acreditaram, sem ter a menor garantia ou certeza de sucesso e com medo de me esborrachar no chão, aguardo pelo momento de aproveitar de outra forma, com menos inquietação e insegurança, meus minutos de um vôo tranqüilo e direcionado.
Estou aguardando a chance de abrir meu pára-quedas.
Ela vai chegar. Me convenço diariamente de que ela vai chegar.
5 comentários:
Se o paraquedas vai abrir ou não, só sabe quem pula.
A gente não leva muita coisa dessa vida. Os saltos são umas das poucas coisas.
*uma
excelente alusão, adorei o texto!Feliz dos que tem coragem de arriscar o salto, a sensação que eles terão talvez nunca os covardes acomodados possam ter.
agora uma pergunta: vc pulou vou não pulou de para-quedas(digo, o de verdade???)pq aqui já ouvi muitas estórias a respeito!muita sudade vice?
beijos
Thais* a histérica
Ah fé, nem me impressiono mais com o quanto suas palavras impactuam sem nem deixa rastro, quando percebo as emoções já afloraram.
Linda.. vou aproveitar a amplitude desse texto e para provocar o stricto sensu dos visitantes de minha rede virtual, vulgo orkut. =D
Eita orgulho dessa menininha!!!
Beijocas
Nossa, adorei seu texto. Esse paralelo traçado foi muito bem feito e, se não temos coragem de fazer o que queremos, quem vai ter por nós?
Sei mais ou menos como é isso, já que também me resolvi em pular de pára-quedas e ouvi muito "o que você vai fazer com os pés longe do chão menino?!"
Mas estou aqui e sei que existem tantos que optaram como eu (agora encontro mais uma) que começo a me sentir bem e, melhor, encorajado externamente... Porque antes meu socorro só vinha do interior, dos princípios.
Como costumo dizer: "Se você está feliz e sem prejudicar ninguém, quem pode te questionar?"
Forte abraço baiano moça,
Fabrício
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