Paleta

Aos doze, entendi que teria um dia do ano que eu passaria a odiar. Não tardou muito e Trinta de Janeiro se avermelhou em meu calendário.

Durante anos repudiei a data, como se fosse o dia em que a tristeza não só podia, como devia, pensar em chegar. Já fazem doze anos que começamos esse desafeto. Doze anos sem C., meu Deus! O tempo realmente escorre num piscar de olhos.

Lembro-me com clareza da escuridão de sua ausência, quando completou o primeiro ano. Lembro-me também do ritual que se estabeleceu para chorarmos sua falta e da impossibilidade do vislumbre de qualquer pontinho de luz.

De uns anos para cá, perdoei o dia. Não foi fácil, mas agora nos entendemos bem. Nossa relação ganhou textura, volume e hoje, não só não o odeio, como também não o deixo passar em brancas nuvens. Muito pelo contrário, coloro cada canto seu, celebrando a lembrança.

Cinco anos passados ainda estávamos em tons pastéis, bem verdade. Mas os dez, foram devidamente celebrados com o celeste do mar, o verde do coco e o cintilante da alma; assim como seria um belo dia de verão se estivéssemos juntos, C. e eu.

Contudo, esse ano em especial, aos vinte e quarto, estou com medo. Com medo do dia acabar.

Amanhã terei mais tempo de vida sem C. presente, do que o tempo que o tive por perto. Tenho medo do quanto ele desbota de minha lembrança. E do quanto vão significar doze anos, frente à uma vida inteira.

Esse ano pintei cinza.

Ainda bem, pior seria se todo ano fosse azul.

À deriva

Tem dias que acordo pra não ser.
É como se não acordasse.

Fico mais aérea, menos racional; com um pé no mundo, outro na lua.

As decisões mais triviais são encobertas por um invólucro nebuloso e acabo arriscando-me em impulsos infantis, sem muito (con)tato com real.

Minha ausência em mim, me embala como o movimento do mar; me traz o silêncio anestésico da submersão.

O infortúnio é saber que meus impulsos se direcionam ao descuido, ao descaso.

No dia seguinte, a vassoura em terra firme se faz necessária para reparar os danos causados em alto mar.