Maiô Preto acenava assertivamente para Biscoito Globo, dividindo sua concentração entre chamar-lhe atenção e catar as moedas perdidas na bolsa para não perder tempo nos trâmites da compra. Com o biscoito em mãos, ajeitava-se, retesa e cuidadosa, de forma a caber na pequena canga e encontrar uma posição favorável para apreciar aquele que, para ela, era indubitavelmente o momento mais ansiado da tarde.
Sem farelos de polvilho pelo corpo, mas igualmente salpicado, Biquininho de Lacinhos Coloridos disparava pra lá e cá em passos maiores que as pernas, sem que tombos pelo caminho fossem motivo de choro. A brisa que soprava naquele fim de tarde tornava prazeroso o abraço morno nos grãos de areia. Bermuda Discreta acompanhava atento cada passo de seu Lacinho precioso, sem esconder o orgulho. Tinha um sorriso incessante como quem afirma incrédulo e vaidoso “fui eu que fiz”.
Quando Peludo Dourado passou trotando, Lacinho não conteve a alegria: “au au”, dizia para o pai enquanto apontava. Ergueu-se e traçou uma reta trôpega. O Peludo, recém saído do mar, sacudiu-se respingando água salgada em quem estivesse por perto. Lacinho freou e se protegeu como pôde – fechando os olhos bem apertados e esperando acabar, quase como estátua. Quando acabou, lambeu os lábios de mar e continuou sua investida.
Bermuda, que a essa altura já estava de pé e ao seu lado, esperou cauteloso que a filha fizesse carinho no animal – cuja altura superava por alguns centímetros a dela. No que a menina estendeu a mão, Peludo, energicamente e com aquele jeito brincalhão inconfundível de Peludos Dourados, se virou rapidamente assustando, principalmente, Bermuda. Num ímpeto, ele trouxe um pouco mais para perto de si a filha. Lacinho mal se moveu, apenas piscou o olho num ritmo diferente – parecia ser esse seu mecanismo de defesa. Não tinha medo por não ter noção, mas, acima de tudo, não tinha medo porque tinha pai. Em seguida, muito mais para se convencer, Bermuda garantiu: “Tudo bem, filha, ele só quer brincar com você”.
E assim ia aquela tarde agradável de segunda.
Até o tempo virar.
A brisa transformava-se em ventania. O sol, que se esforçava para ciceronear o dia, desistiu de tentar. Na aquarela remexida sobressaia o cinza.
Maiô Preto, nos primeiros sinais de chuva, já tinha guardado sua canga na bolsa e saído fugida como se fosse de açúcar, literalmente.
Bermuda bateu o excesso de areia da filha e vestiu-a, se preparando para chegar no refúgio do carro. O vento, que já levantava copos de mate-leão e embalagens de picolé, numa rajada um pouco mais forte, quase levou o guarda-sol, que ele teve o reflexo de segurar. Deixou a filha sentadinha para terminar de arrumar as tralhas com mais eficiência: fechou a barraca, guardou os brinquedos, colocou a mochila nas costas e pegou Lacinho, agora Vestido Vermelho, nos braços.
Nos primeiros passos em direção ao asfalto, a tempestade que se anunciava começou a desabar. Bermuda, agora De Branco, deu uma apressada no caminhar, mas estava carregado e meio sem jeito. Iam ficar molhados, não tinha muito como evitar, então foi no ritmo que deu. Vestido, com as mãozinhas para o alto, não parecia sentir-se ameaçada no aconchego quente do colo do pai.
A praia se esvaziava. Todo mundo se apressava.
Todo mundo, menos um grupo de Calções Gostosões, que jogava vôlei e continuava exibindo seus corpos malhados e molhados. Aproveitavam a trajetória da bola, desviada pelo vento, para fazer pontos inesperados. Continuavam se divertindo, debaixo dos grossos pingos, às gargalhadas.
Chegando no calçadão, De Branco – a essa altura, quase transparente – parou para ajeitar o pau da barraca, que estava escorregando de sua mão por conta da água e do peso. Apoiou Vestido no chão para reorganizar as mãos.
Nesse mesmo instante, um saque para o alto, como um foguete sem direção – obviamente uma gozação entre os Calções Gostosões –, zuniu a bola colorida para o meio da rua. Por acaso, nesse mesmo momento, De Branco se virou para pegar a chave do carro no bolso da mochila. Numa questão de segundos, Vestido disparou. Desta vez para o meio da rua.
O Carro que vinha com o limpador de pára-brisa acelerado, por conta dos cada vez mais gordos pingos de chuva, viu a bola colorida.
Como em câmera lenta, De Branco levantou a cabeça, lívido. Quando viu a situação que se estabelecia – sua filha, bola colorida e carro – gritou desesperado “LUÍSA!”, já correndo em sua direção.
Com o grito, a menina voltou-se para o pai e fitou-o com seus desavisados grandes olhos, cheios de ingenuidade; o pai retribuiu o olhar com o mais sincero pânico em cada canto de branco e castanho que tinha.
O carro que desviava da bola, de repente, viu um vestido vermelho.
Enfiou o pé no freio.
Por uma questão física de quantidade de água na pista, velocidade e aceleração do automóvel e distância de Luísa, o Carro derrapou deslizando na fina camada de água que banhava o asfalto ainda quente e, por um triz, conseguiu desviar.
De Branco se jogou no meio da rua e agarrou a filha mais forte do que nunca. Estava tão desesperado que gritou alto com a criança. Ela parecia não perceber a gravidade do que tinha acabado de acontecer.
Por uma questão física de quantidade de água na pista, velocidade e aceleração do automóvel e distância de Luísa, o Carro derrapou deslizando na fina camada de água que banhava o asfalto ainda quente e, por um triz, conseguiu desviar.
De Branco se jogou no meio da rua e agarrou a filha mais forte do que nunca. Estava tão desesperado que gritou alto com a criança. Ela parecia não perceber a gravidade do que tinha acabado de acontecer.
Com Luísa enlaçada em seus braços, sentou-se no calçadão e apreciou cada um dos pingos que caía. Despido de tudo que tinha dentro de si e encharcado em gratidão, juntou-se aos céus e desabou em lágrimas.
2 comentários:
Amei!
Haha, lili, você é a única pessoa que sabe da existência disso aqui! Mas ainda que outras pessoas soubessem, você certamente seria a única que - sem que eu colabore com qualquer indício de que esse lugar vai deixar de ficar às moscas - vem ver se tem alguma novidade. ;)
Postar um comentário