parabéns

dei-te um presente
escondi em teus livros
no teu violão
para achares
um dia
quem sabe
meu
presente.
mas tu esbarrastes
esbarrastes
sem ver
esbarrastes
sem querer
sequer
tu esbarrastes
tu só.
já não era mais surpresa
já nem era mais presente
se o vires por aí
abra
não
está passado.

amanhã

deixa branquejar
no horizonte
a primeira raiada
deixa tingir-se
lentamente
de rubro-céu
ao estrelejar
a noite alta
deita
na hora do silêncio
do rapto dos sentidos
volta
deixa
o tempo
rasga horas pálidas
aponta
a ponta do dia
o céu aberto
amanhã chegar

A menina

Tinha seis anos, olhos cheios de sonhos, imaginação de criança.
Outro dia, veio correndo para mim com as mãos juntas, apertadas como se não pudesse deixar escapar um tesouro e disse:
- Toma aqui, é pra você! - abriu cuidadosamente uma fresta das mãos, me oferecendo-as. Vazias. 
Percebendo minha surpresa, se antecipou:
- Era para ser um pouquinho de rio, mas escorreu pelos meus dedos no caminho.
- Obrigada - respondi -, estava mesmo com saudade de água.

entra

Abeirou-se amarela fogo
Sem linha reta
         feito borboleta
Embaçou destempos
Embalou nos ventos
colorindo sorrisos
Em um quase nada
de vírgula
          no ar
Ocupou espaços
bastantes
Verdejou vontades
latentes
Fez sonhar
querer
sossegar