amanhã

deixa branquejar
no horizonte
a primeira raiada
deixa tingir-se
lentamente
de rubro-céu
ao estrelejar
a noite alta
deita
na hora do silêncio
do rapto dos sentidos
volta
deixa
o tempo
rasga horas pálidas
aponta
a ponta do dia
o céu aberto
amanhã chegar

A menina

Tinha seis anos, olhos cheios de sonhos, imaginação de criança.
Outro dia, veio correndo para mim com as mãos juntas, apertadas como se não pudesse deixar escapar um tesouro e disse:
- Toma aqui, é pra você! - abriu cuidadosamente uma fresta das mãos, me oferecendo-as. Vazias. 
Percebendo minha surpresa, se antecipou:
- Era para ser um pouquinho de rio, mas escorreu pelos meus dedos no caminho.
- Obrigada - respondi -, estava mesmo com saudade de água.